junho 20, 2007

Bezerra da Silva


Com licença! O Sr. Bezerra da Silva!

Veio de Pernambuco para o Rio de Janeiro aos 15 anos de idade, escondido em um navio, e no Rio ficou trabalhando na construção civil. Tocava percussão desde criança e logo entrou em um bloco carnavalesco, onde um dos componentes o levou para a Rádio Clube do Brasil, em 1950. Daí então tudo mudou, passou a atuar como: Compositor, instrumentista e cantor, gravando seu primeiro compacto. Em 1969 lançou o primeiro LP seis anos depois sem sucesso. Quando lançou a série Partido Alto Nota 10 começou a conhecer a mídia. Com um repertório repleto de autores anônimos, assim Bezerra notabilizou-se com estilo próprio. Muito antes de virar moda ele transmitia do outro lado da trincheira da guerra urbana não declarada: "Malandragem Dá um Tempo", "Seqüestraram Minha Sogra", "Defunto Cagüete", "Bicho Feroz", "Overdose de Cocada", "Malandro Não Vacila", "Meu Pirão Primeiro", "Lugar Macabro", "Piranha", "Pai Véio 171", "Candidato Caô Caô".
Em uma conversa franca com Elias Nogueira, Bezerra da Silva conta como apareceu no Rio clandestinamente, passou fome, foi preso várias vezes e ainda conta o segredo do carinho que os mais jovens tem com ele e de seu novo disco “Meu bom juiz”.


É verdade ou é lenda, que você veio de Pernambuco para o Rio de Janeiro escondido em um navio?
É verdade. Recife é uma região do Nordeste politicamente sacrificada. A minha família é do interior de Pernambuco chamado Nazaré. E a verdade é que se eu ficasse em Recife eu ia morrer de fome, então era uma época que não havia mais condição de ficar. O porto lá de Recife é aberto, eu cheguei eram 18 horas mais ou menos. Tinha um navio cargueiro que transportava açúcar e álcool para Santos. Entrei para visitar e fiquei lá em baixo, tinha um fundo duplo. Ele partiu e eu vim embora. Quando fui descoberto no quarto dia de viagem (foram seis no total), me alimentava de açúcar. Depois o comandante me encontrou e ainda brincou me perguntando: “E se eu te jogar na água?” Respondi que ele ia acabar comigo e estaria tudo certo. Foi quando ele me deu comida e prossegui viagem. Chegando ao Rio, fui procurar meu pai, tinha 15 anos de idade, fui um filho abandonado pela mãe ainda no ventre. Meu pai havia abandonado minha mãe, aquela história de mãe! O certo é que eu nasci em Pernambuco, Recife, na rua Manoel de Carvalho, 244 atrás do campo do Náutico e fui registrado no Méier no Rio de Janeiro. Eu nem sabia onde era este tal de Méier. No entanto a minha mãe diz que eu nasci em 9 de março de 1937 e meu pai colocou 23 de fevereiro de 1927.

E qual é a data certa?
Eu não sei, quem sabe é minha mãe e também não me comovi com nada.
Continuando, saí para procurar meu pai e encontrei uma semana depois. Eu tinha fome, fui trabalhar na Av Presidente Vargas num prédio de 22 andares para fazer pintura. Não sei se você sabe, eu sou pintor de parede e tenho um curso que fiz na escola de aprendiz de marinheiro. Subi naquele andaime de 22 andares, quando o encarregado me falou que só tinha este trabalho para eu fazer. “Se você quiser?" Falou o encarregado? Eu respondi que não tinha dinheiro e nem onde dormir. Ele respondeu que daria comida, dormida e no sábado você paga. Eu peguei o trabalho, subi naqueles 22 andares. É o prédio que tem uma rádio. Depois, fui transferido para Copacabana no Lido para trabalhar em outra obra. Dali fui para a Pça. Serzedelo Corrêa com Siqueira Campos, no edifício Timbira. Ali eu arranjei uma mulher. E esta mulher me contou que havia arrumado um barraquinho e que poderíamos morar e que tinha uma subidinha. Quando vi era o morro do Cantagalo, na rua Teixeira de Melo. E neste morro eu fiquei 20 anos. O tempo passou e eu entrando em cana quase todo dia, com o negocio de averiguação, com fome, trabalhando em obra, sempre passando aquele sufoco. Então, tinha uma Escola de Samba, e um rapaz chamado Alcides Fernandes, que me perguntou se eu queria fazer um programa na Rádio Clube para tocar tamborim, “Te dou cem merreis”. E eu fui, me chamaram para gravar e eu comecei gravando, foi onde tudo aconteceu. Eu só gravava Carnaval, depois acabava e eu voltava para trabalhar na construção civil. Isso durou mais ou menos uns dez anos. Quando chegaram os anos 60, gravei com Jackson do Pandeiro, porque meu gênero é coco.


Era sobre isso que eu ia lhe perguntar, sobre uma participação em disco junto com Jackson do Pandeiro?
Não foi participação, eu sei fazer coco, que é um estilo nordestino, sei tocar zabumba direitinho. Andei gravando umas músicas com Jackson e já estava um pouco conhecido no meio. Tinha um ponto onde se reuniam artistas que era o Café Nice. É o edifício que tem a Caixa Econômica, no centro, onde tem até uma escada rolante, ali era o Café Nice. Mas não dava pra agente chegar, porque ali só pintava cantores, com Cetim e Gabardine, você chegava com uma camisinha ali, não dava. Isso tudo acontecendo, e eu não parava de pintar parede. Estava tocando em Copacabana. Não sei se você sabe, eu toco três surdos de uma vez só. Ai o diretor da Copacabana (gravadora) viu e me ofereceu emprego, isso era 1967 quando fui trabalhar em São Paulo na Orquestra da Copacabana Discos, meu filho (Tuca) tinha um ano de idade. Fiquei contente, ao menos eu morava num barraco no parque proletário da Gávea, que hoje é o Planetário, ali era uma favela. Mas o dinheiro que ganhava não dava, era muito pouco. Voltei para outros bicos, estava gravando Carnaval. Aquilo foi evoluindo, ai apareceu o falecido Astor, grande maestro carioca. Ele era uma pessoa temperamental, só sabia gritando. Então um dia ele escreveu um arranjo e eu estava tocando surdo. Hoje eu sei o que é, mas naquele tempo eu não sabia, tinha lá umas pausas de colcheia e eu não sabia fazer. Tentei umas três vezes, o estúdio repleto de colegas, quando ele disse: “Você já tem idade suficiente para tomar vergonha, deixar de beber cachaça, ir para escola aprender música, porque você está prejudicando os outros”. Tinha que olhar pro papel, não tinha conversa. Ele voltou com o pessoal da orquestra e disse: “Deixa que eu mesmo faço”, o pessoal ficou chateado, dizendo que não precisava ter feito isso. Sai dali, quando o Marinho começou a me dar aula. Estudo música até hoje. Passados dois anos encontrei o maestro. Quando ele falou “Fiz aquilo com você porque já sabia que você ia estudar”. Foi até bom porque se eu continua-se do jeito que estava ia ficar por aquilo mesmo, não ia dar em nada. Quando eu já estava no terceiro ano já em 1977, abriu uma vaga na Sinfônica da Globo. Estavam precisando de um percussionista que soubesse ler música. Eu já estava no terceiro ano de violão, para tocar tamborim e reco-reco?! O emprego foi meu. Ai clareou! Passei a ter plano médico e minha maior preocupação era não passar fome. Trabalhei oito anos, saí bem de lá, na hora que pedi para sair não queriam deixar. Tive que assinar um documento para uma possibilidade de readmissão. Quando virei a pagina, não dava para conciliar as duas coisas. Fiz um bom ambiente, era na gestão do Boni, até hoje quando chego lá, sou bem recebido por todos. Fiz como Xavier, dois discos de coco pela Tapecar nos anos 70 “O rei do coco - Bezerra da Silva” e “Bezerra da Silva - o rei do coco”. Não deu certo, assim como em 1969 ”Mana, Cadê meu boi”, que não havia dado em nada. Quando chegou em 1977 arrumei emprego na Globo e fiz o primeiro disco de samba, “Partido alto nota dez volume 1, Bezerra da Silva e seus convidados” de 1978 e que eles acreditaram no nome. No segundo em 1979 “Pega eu que sou ladrão” que é o volume 2, foi quando o Brasil descobriu a marca que é Bezzera da Silva que é uma coisa inédita. Vendi mais de 400 mil cópias tocando apenas no programa do Adelson (Alves) da Rádio Globo. Daí em diante começou a primeira briga. Vendi mais 400 mil cópias e eles acabaram me pagando 44 mil. Botei a boca no trombone. Fiz mais um disco para cumprir contrato que era eu de um lado e o Genaro do outro, e saí. Assinei com a RCA, fiquei quatorze anos, deixei quatorze discos gravados Já era sucesso quando descobri que estava sendo assaltado e saí da gravadora, aliás, não teve nenhuma gravadora que me mandou embora. Fui para RGE, gravei dois discos. Tem uma música que gravei em 1995 chama-se “Parabéns pra você do Brasil” e ai colocaram “Parabéns pra você meu Brasil”, neste novo CD. Você ver como é que são as coisas, não sei se vocês já ouviram, esta musica não foi feita para o Lula. Falar de ladrão em musica é motivo para todas as épocas. Os autores (Edson Show e Adelino da Chatuba), já desapareceram. Saí da RGE e fui para R & Blues, voltei para CID e fiz primeiro disco ao vivo em 1999 e saí. Em 2000, entrei para Atração em São Paulo e gravei dois discos. Saí da Atração, que é outra gravadora muquirana. O Homem não gostou e se não gostou come menos! Estava fazendo um show no SESC e eles mandaram a diretoria da gravadora. Acontece que eles não cumpriram com que foi prometido para trabalhar, queriam promover o disco apenas com meu nome. Ai eu parei o show no meio, a casa estava lotada, eu comecei a falar, “Esta gravadora (Atração) é uma muquirana, prometeram um negocio e fizeram outro. Porque se vocês tivessem agindo certo comigo eu não falaria isto, e falei e tá falado!”. Ficaram me levando em Banho Maria e a gravadora não estava querendo me dar rescisão de contrato. Eles não faziam nada mesmo! Isso foi em 2001. Ficou neste embate sem me liberar. Vim para CID, fiz este disco. Ainda tem aquela história dos “Três malandros”, que foi idéia do Esdras que é diretor artístico, mas também não foi legal, eles tinham outra mentalidade. Eu já saí da CID umas três vezes e voltei. O pessoal diz que minha briga com a CID é igual de marido e mulher, só teve brigas comerciais, nada de grave. Agora estou lá novamente. Na Universal eu gravei apenas um disco “Eu to de pé” em 1998.

O disco que saiu pela Universal foi bem?
Não. O disco é bom, mas o todo poderoso de lá, ficou meio nervoso, porque queria que eu fosse fazer a “Casa de Samba”. Tem até o Rildo (Hora) que é meu camarada, sempre me chamava. Era pra fazer um disco: Eu, Rildo, Baby Consuelo e a Rita Lee, se não estiver enganado, era sempre uma dupla. Eu olhei e falei para um rapaz que era o diretor na época: “Problema é o seguinte: Acho que já está na hora de eu ter um certo respeito. Você vem me chamar para fazer um pau de sebo?”. Até porque o nome disso era “Pau de sebo” que eram “Rildo Hora e Altamiro Carrilho” lançado pela Copacabana. Ele veio cheio de história dizendo que todos estavam empolgados. Quer saber? Eu tenho uma coisa comigo, eu não gosto de banca. O sujeito que vier de banca comigo eu não aceito. A humildade entra em qualquer lugar e tem saber ser homem em qualquer ocasião. Eu falei o seguinte: “Você me respeite, isso é para iniciante, eu tenho mais de vinte discos gravados e você me chama pra fazer um pau de sebo! Me dá mil reais e depois o que der, é dividido com vinte e oito cantores”. Quanto é que vai para cada um? Todo mundo foi, eu não fui. Sou nordestino, não sou mais homem que ninguém, mas sou jagunço, estou acostumado a passar fome, nunca gostei de empolgação, sou humilde. Ai complicou, não teve nenhum ressentimento, o Rildo me chama até hoje. Contratou o Zeca (Pagodinho), bati palmas para ele e não tenho rancor. Ficou engraçado porque fui para Universal que havia comprado a Polygram. O que se entendia, era que a Universal é quem ia mandar, não sei o que eles arrumaram (os capitalistas), que a Polygram ficou mandando. Foi quando começaram a fazer uma limpa. Foi uma porção de gente mandada embora, eu fui o primeiro da lista. Até o presidente da Universal foi demitido.

O que aconteceu depois?
Existem colegas, não são todos, mas a maioria fica calado, as gravadoras fazem o que querem. O que aconteceu? Eu meti todas elas na justiça. BMG, Universal, Atração e RGE. Esta última eu já ganhei em todas as instâncias e para pagar está um rolo danado. Não adianta, não vem com conversa fiada comigo!
Eu não tenho nada com meus colegas, vivo sozinho. Os órgãos de classe que temos não funcionam. Ordem dos Músicos, Sindicato dos Compositores e Sindicato dos Músicos, tudo isso são fachadas. As gravadoras fazem o que bem querem, não cumprem tabelas e ninguém nunca falou nada. Eu nunca vi tanta covardia e tanto medo! Não sei do que? Eles sonegam mesmo! Nós não sabemos quanto vende e quanto recebe e fica por isso mesmo. Começaram a dizer que eu era um cangaceiro. Eu sempre briguei pelos meus direitos e não quero nem saber. Tem gente que fala que: Eu colocando na justiça vou ficar queimado no meio. E eu sempre respondo “Está me achando com cara de pau de fogueira em festa de São João?” Me dá o que é meu! É isso que eu quero! Gravadora pra mim nunca faltou! Dizem que está uma escassez, pra mim sempre tem! Você grava, recebe da gravadora e não tem direto nem de olhar a nota fiscal!
Você não sabe quanto tem, é a palavra deles! Está certo isso? Eles dizem que o Bezerra é mal educado, ignorante e tudo mais! Acontece que eu pago meus impostos e o que é meu, eu quero! Como o Sr. Gurzoni falou, que eu não sou somente artista, sou um vendedor de discos. Sem exagero, todos discos que já lancei, devo ter de 40 a 50 milhões de discos vendidos. Tem aquele slogan que diz “Crioulo com muito dinheiro corre de casa”, eu não aceito isso, mas tem muitos colegas que aceitam e eu grito mesmo! Fico sendo tachado de favelado, criador de caso, irreverente... Mas não sou ladrão! Nunca tive medo de trabalhar. Tudo que falo eu assumo!


Quantos filhos o senhor tem?
Eram seis, porque um morreu. Eram cinco homens e uma menina. Tenho dois netos americanos (EUA) que eu não sei o que eles falam, moram em Boston. Meus filhos todos são músicos.

Como foi seu encontro com o Zé Ramalho?
Toquei com Zé Ramalho. Gosto muito do Zé e ele gosta muito de mim. Eu toco zabumba, mas o gênero é coco que é um estilo musical que vem do norte e muitos falam que é forró, este negocio é até pejorativo, não tem nada com a teoria. Tem o baião, mas tem o coco que é a base e até hoje ninguém gravou. A divisão do zabumba é diferente e muito difícil quando se toca coco. Aprendi a tocar o zabumba desde os nove anos de idade. Trabalhei muito com o Zé Ramalho, eu era músico dele, toquei em vários discos e fiz shows, isso nos anos 70. O Zé tinha lá um... Sabe como é que é malandro é malandro e não cagueta! O Zé gravou no seu disco novo “Vou apertar, mas não vou acender agora”.

Esta música já foi muita regravada?
Elias, eu já perdi a conta! Regravou o Barão Vermelho, Zé Ramalho, Planet Hemp... . Teve algumas que não lembro agora.

O compositor ganhou alguma coisa com esta música?
Ganhou! Uma marmita! Que vez por outra, quando ele vem me visitar e eu dou um prato de comida para ele, que nem dinheiro de passagem tem! Isso me revolta! Ele era para está numa situação diferente!

Quais os instrumentos o senhor toca?
De percussão, todos, desde tambor de Macumba até berimbau. Estudo trompete, violão e cavaco. Estudei oito anos de violão com o método clássico, aprendi ler música e escrever.

Você chega a usar sua habilidade instrumental em seus discos?
Eu mesmo toco, eu mesmo gravo.

Quem faz a seleção de repertório?
Eu mesmo, porque se entregasse nas mãos dos outros eu já tinha me acabado há muito tempo.

Qual o critério que o senhor usa para fazer a seleção?
Faço muita pesquisa. O Compositor é a base, eles são uns privilegiados, como Nélson Cavaquinho e Adoniran Barbosa. Não pela posição que eles ganharam, não é qualquer um que tem esta dádiva divina! Eu mesmo não tenho. As outras coisas são conseqüências. Eu não aceito parceria de ninguém! São estes compositores que me mantém com mais de trintas e poucos anos de pé! Abaixo de Deus, eu devo há eles. Se não fossem eles, eu não estaria aqui! As maiorias são favelados, pobres, desempregados e de baixas rendas, quase todos moram na Baixada Fluminense do Grande Rio. Esse pessoal tem um poder de criatividade fora do comum e quase todos são analfabetos. Eles me colocaram numa situação privilegiada. Eu não tenho concorrente. A música de trabalho deste disco seria, “Produto importado”, ai teve um bafafá, que não podia! Por mim eu colocava! E aonde eu chegar, toco. É uma composição do G. Martins. Fala de um produto que vem da Colômbia, Bogotá! Mas será que lá só vende cocaína? Não vende geladeira, televisão, automóveis, jogador de futebol. Sabe como é que é! Então trabalhando a primeira faixa que é “Semente”. Os autores me enviam várias fitas, agora fica mais fácil. Acontece que no passado eu subia vários morros com um gravador e ficava escutando, até na cadeia eu ia! Tudo isso porque uns tinham complexo, outros vergonha. Na cadeia é porque não podiam sair mesmo! Agora mesmo eu fiz uma pesquisa. Como cantor pobre, não tenho dinheiro para bancar nada, nem automóvel e nem geladeira para dar de presente para a rádio tocar minha música (e se tivesse também não dava!). Então este último disco que fiz vendeu mais de duzentos e cinqüenta mil cópias sem tocar nas rádios. Eu tenho um público jovem e roqueiro, e sobre esta coisa toda e eles falam mesmo! “Bezerra eles não tocam seus discos nas rádios, mas nós compramos assim mesmo!”. Voltando ao disco, gravei uma música do Neguinho da Beija Flor “Bem melhor que você” e gravei um samba chamado “Em seu lar”, do Norival Reis, mais conhecido como Vavá da Portela, que eu já havia gravado nos anos 70, tocando surdo e quem cantava era Flora Matos. Gravei “Noticia” que é de Nélson Cavaquinho, Lourival Bahia e Alcides Caminha.

Como foi a participação do Marcelo D2?
O Marcelo é um cara legal! Gosto dele e ele de mim. Eu estava em São Paulo, quando um rapaz pegou um disco do Planet Hemp. Era ele e tinha regravado “Vou apertar, mas não vou acender agora”. Isso passou. Quando foi um dia ele me chamou para participar de um show no Canecão. Fiz o show numa quinta-feira, até o Frejat estava lá.Quando foi no sábado, eu havia viajado para Salvador para fazer show, quando cheguei no hotel, peguei o jornal e estava lá: “Preso Planet Hemp”, aquele negocio todo. Comentei com a Regina minha esposa. “Quer apostar que meu nome está aqui? Ela perguntou porque? É porque eu sou a bola da vez! Quando abrir o jornal estava lá. O Bezerra da Silva já cantou...”. Se você não sabe a maconha é remédio! Manga Rosa é o nome de uma maconha, tem Cabeça de Nego, que ninguém consegue fumar um baseado inteiro sozinho. Quando Marcelo entrou em cana eu mesmo fiz a versão e o convidei. “Doutor Deus criou a natureza e também a beleza desta vida e o Planet Hemp quer saber porque que esta erva é proibida?” (parte da letra da musica “Garrafada do Norte” em que Marcelo D2 teve participação especial). Tem também “Minha sogra parece sapatão”, “O bom juiz” que é do falecido Beto Sem Braço e Serginho Meriti.

E shows?
É o seguinte, devo ser o único artista que não faz.

Por que?
Porque não tem. Eu vejo muitos que dizem que estão com agenda cheia, (Vou tocar na França, na Suíça, Inglaterra) e daqui a pouco o cara está duro na esquina pedindo dez merreis emprestado. Mente para está na mídia. Vou para São Paulo para fazer o Bem Brasil, SESC... Quanto ao show? Quando digo o valor eles não querem pagar. Principalmente aqui no Rio de Janeiro. Eles gostam do show de graça. Dão um sanduíche, se você dá dois eles te dão, arrumam uma poeirinha até para cafungar.

Você tem disco lançado fora do Brasil?
Tem sim, uma vez estava em Boston, com um amigo, e fomos juntos numa loja de disco do mundo inteiro e mostrou vários discos meus e ainda brincou dizendo para quando eu chegar no Brasil, verificar se eles estavam me pagando certo. Tenho disco em Portugal, na África... Tenho disco em lugares do mundo que eu nem conheço!


Entrevista concedida originalmente ao jornal International Magazine em agosto de 2003. Esta entrevista, segundo o próprio entrevistado, foi a melhor e mais completa já feita em sua carreira. Vale informar também que: Uma parada cardíaca, conseqüente, a enfisema pulmonar e pneumonia, levou à morte o cantor e compositor José Bezerra da Silva dia 17 de janeiro de 2005, no Rio de Janeiro, aos 77 anos.

2 comentários:

Henrique Kurtz disse...

Poxa, que entrevista legal!
Parabéns!

Anônimo disse...

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