fevereiro 11, 2008

Fernando Magalhães


Fernando Magalhães, guitarrista e compositor, filho caçula de uma família de quatro irmãos. Quando tinha 13 anos, ganhou sua primeira guitarra supersonic da Giannini. Aprendeu os primeiros acordes com um de seus irmãos. Iniciou a carreira profissional em 1982, quando integrou o grupo punk carioca 402, de 1982 a 1984. Depois, passou a atuar pelo conjunto Páginas Amarelas, tendo lançado um compacto triplo pela PolyGram. Passou a integrar a banda Barão Vermelho em 1987. Entre 1989 e 1991, montou o grupo Cruela Cruel, ao lado de Luiz Henrique Romanholli e César Nine (ex-Coquetel Molotov). Lançando seu primeiro trabalho solo, o guitarrista concede sua primeira entrevista ao INTERNATIONAL MAGAZINE para falar sobre carreira, Barão Vermelho e disco novo! Deixemos o Fernandão falar!

Por Elias Nogueira

- Antes do Barão você tocava com quem?
- Toquei com um cara chamado Clóvis Neto, que tocava muito na Rádio Fluminense e era amigo do Luis Antonio Mello. Era uma coisa meio, jazz e meio pop. Fiz guitarra com ele porque tinha um amigo chamado Ricardo Trajano que tocava baixo. O Clovis tinha uma banda chamada Páginas Amarelas. Chegamos a gravar um compacto triplo. Foi o Ricardo quem me convidou para tocar com o Clovis. Cheguei a tocar numa banda de reage do meu irmão, André Magalhães, chamada Batom. Antes toquei umas coisas meio punks. Toquei na banda 402, toquei com o Zé da Gaita, que é meu amigo até hoje.

- Você chegou a integrar a banda do Zé da Gaita?
- Toquei! Fiz show no Circo Voador com ele, o primeiro Zé Who, toquei baixo mas cheguei a tocar guitarra com ele!

- Então, é por isso que muitos dizem que você toca baixo?
- É por causa do Zé Who, mas meu instrumento é guitarra!

- Fale mais.
- Na verdade, quando eu tocava com o Zé da Gaita, no começo de 1983, se não me engano em janeiro! Logo depois, fui para o exército. Eu toquei com o Zé “reco”! Fui pela manhã “reco”, a tarde passei o som, à noite fiz o show e pela manhã me apresentei no quartel. Isso era em 1983. Servir o quartel de janeiro a novembro. Vi o Barão tocando no Rock in Rio em 1985.

- Você nem imaginava em tocar com o Barão?
- Não! Lá para agosto ou setembro de 1985, me liga o Frejat e não nos separamos mais! Ele falou que o Cazuza havia saído da banda e estava, ele, assumindo os vocais. - Falei com o Guto e ele lembrou de você, disse o Frejat. Estamos precisando de um guitarrista, contratado, para tocar algumas coisas de guitarra porque não dava para tocar e cantar tudo! Foi isso. Fui ficando... Depois veio o Peninha.
- Quem trouxe foi o Guto?
- É, mas o Peninha já havia gravado umas coisas anteriormente. Acho que foi “Bete Balanço”...

- Quando você entrou?
- Entrei no final da turnê “Maior abandonado” isso em 1985. Em 1986, o Barão gravou “Declare e guerra”. Depois teve “Rock´n Geral”, que já saiu pela Warner. Eu só tocava ao vivo.

- E em estúdio?
- Fazia participação. Fazia um solo aqui, outro ali... No “Carnaval”, nós já tocávamos tanto, eu e o Peninha, que o Frejat, Guto e Dé, acharam melhor gravar em quinteto. O Maurício também havia saído. Ensaiamos e fizemos o “Carnaval”. Esse disco teve o trabalho dos cinco, em termos de arranjar e sair tocando. Foi o primeiro trabalho do quinteto em grupo! Depois veio o disco ao vivo que foi a extensão da turnê do “Carnaval”. Depois foi o “Na Calada da Noite”. Nesse disco, quando o Dé saiu, os dois convidaram a gente para integrar realmente na banda! Acabou entrando o Dadi, também.

- Foi quando o Barão completou dez anos.
- Isso foi em 1991/92. “Na calada da noite” saiu em 1990. O Dadi fez a metade da turnê e depois entrou o Rodrigo. Estamos em 1990, só que antes, quando eu tocava com os Páginas Amarelas em 83, 84... Eu tinha uns projetos com uns amigos de rua. Um era o Marcos Matos (baterista) o outro era o Carlos José (baixista) e esse projeto teve vários nomes. “Riso Forçado”, “Tróia”, “Os Inconvenientes”... Era um núcleo de amigos que participavam. Chegamos a compor nessa época que foi de 1981 até 1985, acho que foi isso. Tínhamos várias coisas. Algumas dessas músicas, estão no meu disco instrumental. É muito importante falar isso, porque o Marcos Matos tem parceria comigo. Essas músicas, umas três, já existem há muito tempo! É muito louco, porque não achei que elas ficaram datadas! Outra coisa interessante que quero falar sobre a década de 80 é que: Você falou que o meu som saiu muito parecido com o de Joe Satriani. Só que na verdade, ele não é Joe Satriani ele é, sim, influenciado pelo Steve Stevens, guitarrista do Billy Idol. Ele foi o cara que me influenciou na década de 80, com essa coisa de guitarrada, solo e parede de guitarra! Sempre fui ligado ao punk. Sempre gostei muito de Beatles, Stones... Eu peguei em cheio o punk, do Clash, Sex Pistols, Dr. Feelgood que era pré-punk. Isso tudo veio na veia! U2 também! Foi uma influência total.

Os Rolling Stones?
Os Rolling Stones? Pra caramba! Hoje mesmo quando estava vindo te encontrar, estava escutando! O Barão sempre foi uma banda voltada mais para os Stones, embora tenha integrantes na banda que são beatlemaníacos e tem coisas latinas também! O Peninha que foi um cara que ouviu muito Santana, assim como todos da banda! A ligação dele com o rock veio, muito, do Santana. Acho a influência do Peninha no som do Barão, é total! Ele é um cara que tem um molho, é roqueiro... Ele sempre foi muito importante!

De lá pra cá, você continuou.
Nesta época, eu montei um projeto paralelo com Romanholli que toca com os Picassos Falsos, Pedro Senra que hoje em dia trabalha no mercado de vídeos, a banda “Cruela Cruel”, em 1990 e cheguei a fazer um show no Teatro Ipanema. Não cheguei a gravar nada. Nessa época o Barão estava a mil por hora e tinha muito trabalho! Passei todos esses anos dedicados ao Barão e não tinha muito tempo para fazer outras coisas e quando tinha uma parada, eu parava mesmo! Não tinha ânimo para fazer outra coisa, queria curtir a família. Só que quando paramos em 2001, foi uma loucura! Tinha aquela coisa, que estávamos acostumados a não fazer outras coisas. Pensei: Sê é pra parar, então vou detonar! Conheci o Kleston dos Detonautas na casa do Gabriel e me convidaram para produzir o primeiro disco deles e graças a Deus saiu tudo certo! Deu certo por causa do talento deles, mas era difícil porque tem tanta banda querendo fazer sucesso, mas conseguimos. Fui tocar com outras pessoas como, Vinny, Gabriel O Pensador... Pude estreitar minha amizade com o Roberto Lly; gravei participação com os Detonautas, Blitz... Resolvi que queria fazer um disco! Tinha um monte de coisas, idéias inacabadas, idéias acabadas, coisas que tinham letras e não tinham música...

Esse projeto do disco solo não começou agora?
Na verdade esse projeto começou na época em que o Barão Vermelho deu a primeira parada em 2001. Essa primeira parada, apesar de nós já sabermos desde 1999, foi uma porrada! Nós estávamos acostumados! Eu toco no Barão desde de 1985 e desde então, nunca parei de tocar com eles.

- Quando o Barão deu a primeira parada, vocês reuniram o Barão Instrumental.
- Na verdade, foi uma forma de se divertir e foi prazeroso. Alguns dizem que aquilo foi um equívoco nosso. Mas eu acho que foi uma forma de perceber, ainda não tinha caído à ficha, que o Barão tinha parado. É que estávamos tanto tempo tocando juntos e de repente, parar, foi um baque para nós. Tudo que tínhamos feito com o Barão fazia parte de nossas vidas. Tanto que nós não nos interessamos mais em fazer instrumental. Rolou alguns shows. Essa idéia surgiu num work shopping que o Guto foi fazer.

A parada do Barão redeu frutos?
Na verdade, a parada do Barão foi muito vantajosa. A nossa volta em 2004 foi maravilhosa! A expectativa foi grande e ainda teve o filme do Cazuza que foi muito falado!

- Porque um disco instrumental?
- Não tenho vontade de cantar, pelo menos por enquanto não me vejo a frente do palco cantando e resolvi fazer um disco de guitarra! Comecei a fazer naquela época! Tem muito tempo que comecei a fazer esse disco. Ele está pronto algum tempo, mas começou a voltar o Barão e fiquei na dúvida se era o momento... Conversei com amigos e o Humberto Barros aconselhou a colocar tudo pra fora.

- Tudo bem que você falou que não tem pretensão de cantar, pelo menos por enquanto, mas o Santana também nunca teve pretensões de cantar e lança discos, quase sempre, com convidados e sua banda, tem um vocalista. Você já pensou nisso?
- Por eu não cantar nesse disco, não quer dizer que não possa lançar um disco de convidados ou disco de violões! Acho que posso abrir um leque muito grande. O lance do disco instrumental, não é um disco que não necessita tanto dos meios de comunicações, no sentido intenso, de entrar em rádio, em rede, ou precisar aparecer num programa de televisão. É um circuito bem menor, mas com seguidores fieis e é um disco de rock e não um disco de música lound e não é um disco de blues. É um disco de rock! Não tem nada de brazuca. Rock é uma linguagem universal.

- Deu medo em mostrar seu trabalho solo?
- Sempre fico querendo que todos gostem! Mas ou você faz ou não faz nada. Acho normal, temos que estar preparado para tudo.

- Fale da idéia do disco.
- Eu lembrei de um amigo meu, Pedro Strasser do Blues Etílicos e convidei para fazer um disco instrumental. Ele topou. Ele tem um estúdio na casa dele em Sta. Tereza e fizemos guitarra e bateria, ensaiamos muito! Depois eu coloquei o baixo. Começamos fazer assim: Pensamos em três músicas e falei para o Frejat liberar o estúdio (Dubrou) dele e como é meu amigo, liberou! (risos). Falei com o técnico de som do Barão, Renato, deu uma força. Depois ia para o estúdio do Pedro. Ficaram faltando quatro músicas e eu parei com o disco um tempão, durante 2001/2002. Em 2003 Roberto Lly escutou, gostou e disse que eu deveria lançar. Chamei o Roberto para fazer a co-produção e ele deu uma arrumada. Fomos para outros estúdios e gravamos o resto, inclusive as baterias. O Roberto gravou os baixos, entrou o Villarim que era o tecladista do Bacamarte.

- As faixas.
- “Insônia" e “Nos deixem a sós” são da década de 80. “Sansara” (década de 90), foram às três primeiras. De bicicleta no parque (nova) “Só o tempo” (nova), O amanhecer (nova) e “Kátiana”, que não é tão nova assim. As que sobraram fora: “Rádio sonora” (é um pouco nova), “Eu e você somos um”, da década de 80, mas gravei por último. “O Homem Coelho” (nova). Tem coisa em parcerias como o Marcos Matos, com o Frejat, “Nos deixem a sós” que quase entrou no disco do Barão de 2004. Ela tem letra e está guardada.

Você está lançando seu disco de uma forma diferente do normal. Um pequeno número de artistas que arriscam lançar disco pela Internet.
Isso é uma aposta! Outra coisa: Sou o primeiro artista licenciado pela Warner Digital a fazer esse tipo de lançamento. Achei que poderia pegar um público seleto que gosta de rock. Isso não quer dizer que eu não vou lançar meu disco de forma física. Eu não estou levantando bandeira para que todos lancem disco de forma digital, virtual... Eu sou do tempo do vinil e adoro freqüentar lojas de discos e comprar cds.

- Você também faz parte da banda do Rodrigo Santos.
- O Rodrigo é um superamigo! Ele quis fazer o trabalho solo dele, que é uma coisa totalmente diferente do meu. O disco dele é para brigar em rádios, tv, na mídia... Ele precisa de mídia e reconhecimento. É um outro caminho da mídia. Eu preciso também da mídia, mas é diferente!. O disco do Rodrigo é um rock popular. Eu participei porque estamos sempre juntos e ele me chamou para tocar guitarra. Tenho maior prazer em tocar com Rodrigo. Faço no amor! Gosto dele, do trabalho dele, acho que fiz um trabalho de guitarra bonito no disco dele, gosto da banda...
-Você participou, também, do disco do George Israel.
- É outro amigão meu! Fiz uma participação. Precisamos tocar mais vezes, juntos! É um cara talentoso. O sax dele é inconfundível.

E a T-Rec?
- A T-Rec é o seguinte: Eu na verdade fiz os Detonautas com um amigo, Marcelo Guapyassú. Ele foi produtor executivo e eu o musical. Depois que fiz os Detonautas, pensei em produzir outras coisas. Eu tocava com Vinny e o Roberto Lly, do Erva Doce e que agora tem o Hervah, é um cara que é produtor. Apresentei o Roberto para o Marcelo e contei a história dele. Começamos a investir numas bandas e pensamos: Estamos fazendo bandas para os outros, porque não fazer para nós. Foi ai que fundamos a T-Rec. Foi mais uma maneira de não ficar sem trabalho. Só que pegamos toda crise do mercado fonográfico, lá atrás. Não sei dizer no que isso vai dar. Sei que tem uma crise. Lançamos Mutreta, O Crivo, Victor Biglione e Andy Summers, Sukhoi, Power Bob... Foi bacana! Nossa experiência na T-Rec, foi uma coisa muito interessante! Inclusive, o Marcelo está escrevendo um livro sobre isso! Tínhamos uma parceria com a Indie Records.... O Líber Gadelha que era amigo do Marcelo e diretor da Indie ficou doente! Foi uma loucura! Vale um dia só para falar da T-Rec.

Nesse ínterim, você não mexeu no seu disco?
- Não. Antes do retorno do Barão, eu co-produzi o segundo disco dos Detonautas com Tom Capone. Aliás, fiquei um tempão com Tom Capone com os Detonautas e depois, eu emendei com o Barão. O Tom faleceu no meio do disco do Barão... O álbum de capa vermelha, homônimo. Depois veio o disco ao vivo gravado no Circo Voador. Ai, eu já estava pensando no meu disco solo e no que faria com ele.
- E o retorno do Barão Vermelho?
- Não sei! Até agora, não sei de nada.

Publicado originalmente no jornal International Magazine na edição 139 de dezembro de 2007.

Um comentário:

Henrique Kurtz disse...

A entrevista com o Fernando Magalhães ficou muito boa.
Gostei de ler!