
Por Elias Nogueira
- Seleção de repertório durou mais de dois anos para ser concretizado. O que mais deu trabalho na escolha?
- O mais difícil foi escolher só 14 músicas para entrar no disco. A princípio, nós tínhamos 90 preferidas, então, você imagina quantas músicas ficaram de fora e como foi difícil selecioná-las! Dava para fazer mais uma porção de discos.
- Ficaram faixas de fora, que você gostaria que estivessem incluídas?
- Sim, claro, algumas, ou melhor, dizendo, muitas! Se citar todas nem caberia neste espaço. Algumas eu espero ainda gravar em outros discos.

- Vejo que as composições, do seu disco, são de nomes consagrados. Você teve autorização pessoal de cada um deles? Eles escutaram a sua versão? Opinaram?
- Não, com esses arranjadores, esse estúdio e o José Milton. Não precisamos.
- Quanto tempo você tem de carreira?
- Canto profissionalmente desde 1988, quando ganhei o Festival de Camocim, no Ceará. Entretanto, quem gosta de cantar não espera muito. Aos três anos participei e ganhei um prêmio, "Melhor voz infantil" de Itapipoca - onde nasci. Nesse concurso fui inscrita pela minha mãe, era produção da Radiadora de lá - espécie de rádio comunitária. Cantei em corais, participei da Ópera Nordestina, que só apresentou dois atos por falta de recursos financeiros. Enfim, sempre cantei!
- Pode falar dos outros trabalhos?
- Antes desses dois álbuns, que considero mais profissionais porque foram lançados via gravadoras e com distribuição nacional - Kuarup no primeiro e este pela Som Livre. Fiz três discos independentes no Ceará que ficaram com distribuição somente no Estado – Divina comédia humana de 1991 em vinil, Lucinha Menezes ao vivo com repertório da Carmen Miranda em 1996 e Lúcia Menezes de 2005.
- Produzido por José Milton e arranjos com a assinatura de Cristovão Bastos e João Lyra. Como foi trabalhar com eles?
- Já havia gravado com eles no disco Lúcia Menezes que fiz em 2005. São maravilhosos, grandes profissionais e pessoas lindas! Gostaria sempre de trabalhar com eles. O José Milton é meu Mago!
- Sendo o segundo disco, qual o diferencial para o primeiro?
- No que se refere à qualidade e repertório acho que está parecido. No sentido de bem trabalhado, bem gravado, bem arranjado, e bem produzido. Nas relações pessoais foi muito melhor, pois com o tempo, ganhamos confiança e liberdade mútua. Agora, já somos amigos!
- Rio, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte.... Haverá shows de lançamento?
- Faremos shows no Rio ainda em abril, se Deus quiser! São Paulo, logo a seguir. No Rio de Janeiro temos marcados dois pocket shows - 30 de abril na Livraria Saraiva do Shopping Rio Sul e no dia 15 de junho na Modern Sound. Mas estamos fechando também temporada em outros lugares, para um público maior. Fortaleza, minha cidade, será logo depois, seguida de Curitiba, Belo Horizonte e Brasília.
Faixa a faixa

Presente de Iemanjá (João Lyra / Paulo César Pinheiro) - canção inédita feita especialmente para o disco, traz o ritmo indígena toré – cantos sagrados que desenvolve nos índios o amor, a união e a força para sustentar sua cultura.
Chazinho com biscoito (Vander Lee) - Lúcia ouviu este samba no disco do próprio Vander, se identificou logo com ele e aprendeu a cantar sem compromisso. Sua interpretação remete à melhor escola de Carmem Miranda.
Estátua da paciência (Noel Rosa / Jerônimo Cabral) - o fox trote pouco conhecido de Noel Rosa e Jerônimo Cabral é, segundo Lúcia, musicalmente diferente de tudo que Noel fez, mas a letra tem tudo a ver com ele. Foi gravada uma única vez pelo grupo Coisas Nossas na coleção completa de sua obra lançada pela gravadora Velas em 1983, onde a cantora a descobriu.
Os grilos são astros (Rosinha de Valença) - uma canção lenta com influências rurais que traz a delicadeza na música e na letra. É bastante conhecida pela interpretação da própria Rosinha.
Terral (Ednardo) - esta canção com acentos do maracatu cearense remete à Lúcia o sentimento de saudade do Ceará, sua terra natal. O filho Artur Menezes, também cearense e músico, participa tocando guitarra.
Uva de caminhão (Assis Valente) - samba bem conhecido na interpretação de Carmem Miranda. E, como Lúcia é apaixonada por Carmem e por Assis Valente, recheia o disco com charme e graciosidade.
Menino de roça (João Bá / Dercio Marques) - este baião só foi gravado por João Bá e apresentado a Lúcia pelo próprio autor.
Nem ouro, nem prata (Ruy Maurity / José Jorge J.B. de Carvalho / Júlio José do Nascimento) – o ponto de terreiro é recordação de adolescência de Lúcia. Quando o redescobriu num disco de Ruy Maurity encontrado como raridade num sebo, a música lhe voltou à memória com muita alegria.
Palavra doce (Mario Travassos) - este samba, gravado por Mario Reis em 1963, já estava completamente esquecido e foi trazido para o disco por José Milton. Sua gravação só foi possível após a única sobrinha do autor registrar a música e liberá-la.
No cordão da saideira (Edu Lobo) - o frevo de bloco tem o sabor do início da adolescência em Fortaleza e lembra Nara Leão, outra paixão de Lúcia, que o gravou tão lindamente.
Samba do grande amor (Chico Buarque) - este samba a enlouqueceu desde que ouviu pela primeira vez e escolheu porque estava bem próxima dele no momento da definição do repertório. Já foi gravado por grandes intérpretes da MPB, cada um com uma interpretação própria e marcante.
Mangaratiba (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira) - xote que fez muito sucesso no Ceará e era bem conhecido de toda a família. Hoje, morando no Rio de Janeiro, Lúcia passa alguns fins-de-semana no município de Mangaratiba, próximo à capital. Gravou-o em homenagem aos vários amigos que encontrou por lá.
Viola cantadora (Marcelo Tupynambá) - esta cantiga de viola é outra música que Lúcia canta desde criança, quando faltava energia em Fortaleza e, então, a família se reunia na varanda e rolava a cantoria.
Os profissionais (Belchior) - um rock com levada country tão importante nos anos 60, que, 40 anos depois, ainda faz um resumo daquele movimento. O filho Artur Menezes participa novamente com o violão slide e a guitarra brincando entre eles.
Fotos: Leonardo Aversa
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